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Quixotesco

A guerra contra o tempo.

15 · SET · 20264 min de leitura
Leitura

Se Requiem for a Dream e Black Swan marcaram época pela maneira como transformaram o terror psicológico em experiência física, The Substance parece disposto a levar essa lógica alguns passos adiante.

Muito por causa das bizarrices gráficas, é claro. Mas sobretudo pelo ritmo frenético, intenso, desesperador.

Há momentos em que o filme nos coloca dentro de um espaço quase claustrofóbico e simplesmente se recusa a nos deixar sair. Resta suportar aquilo junto às personagens. Participar do desconforto. Sentir repulsa, ansiedade, constrangimento, horror.

E não é também para isso que serve o cinema?

The Substance mobiliza tudo o que possui – da montagem ansiolítica ao gore escalafobético – para chegar a uma ideia muito maior do que o choque. Por trás dos corpos abertos, das deformações e do grotesco, existe uma obra furiosamente contrária ao etarismo e à obsessão contemporânea pela correção do rosto, do corpo e da idade.

É, em última análise, um filme pró-tempo.

Demi Moore interpreta Elisabeth Sparkle, uma mulher de cinquenta anos que, apesar de continuar extremamente bonita e em excelente forma, é dispensada do programa que apresentou durante anos. O motivo é tão brutal quanto banal: querem “sangue novo”.

E será justamente de seu sangue que nascerá Sue.

Por meio da Substância, Elisabeth produz uma versão mais jovem de si mesma, interpretada por Margaret Qualley. Sue possui tudo aquilo que o mundo deixou de enxergar em Elisabeth: juventude, frescor, desejo, novidade. Rapidamente, ocupa não apenas o espaço profissional que antes pertencia à sua outra metade, mas também aquilo que Elisabeth acredita ter perdido com a idade.

O problema é que Elisabeth e Sue não são duas pessoas. São uma só.

O filme insiste nessa informação inúmeras vezes porque suas personagens parecem incapazes de compreendê-la.

Pouco a pouco, ambas passam a se tratar como inimigas. Sue não aceita dividir sua existência com Elisabeth; Elisabeth observa seu próprio corpo deteriorar-se enquanto permite que Sue desfrute da vida que gostaria de continuar vivendo. Uma destrói a outra enquanto, paradoxalmente, cada agressão dirigida à adversária é uma agressão contra si mesma.

Esse talvez seja o aspecto mais cruel de The Substance: Elisabeth não precisa apenas ser humilhada pela indústria. Em algum momento, ela passa a repetir contra si própria a mesma violência que sofreu.

Ela aprende a olhar para o próprio corpo com os olhos de quem a descartou.

Enquanto Elisabeth e Sue travam uma guerra cada vez mais brutal entre juventude e envelhecimento, quase se esquecem de onde nasceu o conflito. Ao redor delas permanece intacta a estrutura que determinou que uma mulher pudesse ser desejável aos vinte, celebrada aos trinta, tolerada aos quarenta e substituída aos cinquenta.

Os homens que comandam esse sistema, por sua vez, envelhecem sem que sua idade represente qualquer ameaça ao seu poder.

É aí que a sátira se torna particularmente venenosa.

Elisabeth acredita que precisa tornar-se outra pessoa para recuperar aquilo que perdeu. Sue acredita que precisa eliminar Elisabeth para preservar aquilo que conquistou. Nenhuma das duas percebe, até ser tarde demais, que está obedecendo à mesma regra que as condenou: a ideia de que seu valor depende da capacidade de permanecer jovem, bela e desejável.

Criadora e criatura levam essa lógica até suas últimas consequências.

Elisabeth perde progressivamente o próprio corpo, depois a própria autonomia e, por fim, quase a própria voz. Sue, construída para representar uma versão supostamente perfeita, termina igualmente deformada. A busca pela imagem ideal produz exatamente o contrário daquilo que prometia.

Não é por acaso.

Se o corpo real é tratado como um defeito que deve ser permanentemente corrigido, nenhuma correção poderá ser suficiente.

Sempre haverá outra ruga, outro quilo, outra imperfeição, outro procedimento.

Outra versão de nós mesmos aparentemente mais jovem, mais bonita, mais desejável – e portanto, segundo essa lógica, mais digna de existir.

The Substance leva essa ideia ao grotesco porque talvez somente o grotesco seja capaz de revelar o absurdo que aprendemos a considerar normal.

E então sobra uma pergunta bastante simples: é essa a melhor versão que temos a oferecer de nós mesmos?

Uma automutilação permanente do rosto, do corpo, da idade e das experiências acumuladas apenas para preservar a aparência de alguém que já fomos?

O tempo não é indiferente a ninguém. Ele alcança Elisabeth, alcança Sue, alcança os executivos que as observam e alcançará também quem está do outro lado da tela.

A diferença talvez esteja apenas no que fazemos quando ele finalmente bate à nossa porta: podemos passar a vida lutando contra aquilo que não pode ser vencido ou podemos aceitar que envelhecer não significa permanecer o mesmo. Significa transformar-se.

The Substance é, em última instância, um filme sobre uma linda mulher que, por pressão externa, tenta desesperadamente impedir essa transformação. E acaba destruída justamente porque não consegue aceitá-la.

Entregue à incerteza e guardado pelo acaso,
O Quixotesco

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O Quixotesco

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