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Quixotesco

Resenha

A rachadura na casa dos Borg

13 · SET · 20267 min de leitura
Leitura

Desde The Worst Person in the World, Joachim Trier se tornou o tipo de diretor que me faz parar tudo para assistir ao que produziu de novo. A chamada Trilogia Oslo – completada por Reprise e Oslo, August 31st – aprofundou ainda mais minha admiração pelo norueguês.

Em Sentimental Value, porém, esse sentimento alça voos maiores. Acredito ser sua melhor obra dentro de uma filmografia que considero praticamente irrepreensível.

O mais novo filme de Trier se aprofunda no mundo dos sentimentos sem cometer o erro de cair no sentimentalismo. Fala de abandono, ressentimento, trauma e perdão, mas sobretudo daquilo que recebemos daqueles que vieram antes de nós – e do que fazemos com essa herança antes de entregá-la, consciente ou inconscientemente, a quem vem depois.

Talvez por isso um dos personagens mais importantes do filme sequer seja humano. É uma casa.

A casa onde os Borg viveram durante gerações possui uma grande rachadura diagonal atravessando uma das paredes. O narrador chega a se perguntar como aquela construção continua de pé.

Não sou engenheiro, mas a forma da fissura lembra uma rachadura provocada por recalque: o problema aparente surge na parede, embora sua causa esteja muito abaixo dela. É o solo que cede; a fundação acompanha o movimento; só depois a estrutura torna visível aquilo que já vinha acontecendo silenciosamente.

Sentimental Value é, em grande medida, um filme sobre isso.

A casa é a família Borg. O solo é sua história. A rachadura são os danos que, décadas depois, finalmente conseguimos enxergar.

As irmãs Nora, atriz, e Agnes, historiadora, reencontram Gustav, o pai ausente e diretor de cinema, após a morte da mãe. Ele retorna com um roteiro novo e quer Nora como protagonista.

“Eu escrevi este roteiro e a protagonista tem tudo a ver com você”, diz.

Nora, tão combativa e orgulhosa quanto o próprio pai, recusa-se até mesmo a lê-lo.

É então que surge Rachel Kemp, atriz norte-americana interpretada por Elle Fanning. Encantada pelo cinema intimista de Gustav e aparentemente cansada de uma carreira pautada por blockbusters, aceita protagonizar o projeto.

Mas Rachel logo descobre que não recebeu apenas um papel.

Gustav começa a projetar nela a filha que recusou seu convite. Corrige seus gestos, tenta aproximá-la de Nora e chega a pedir que mude a cor dos cabelos para se parecer mais com ela. Quanto mais tenta dirigir Rachel, mais evidente se torna que escreveu uma personagem que não pode ser interpretada por qualquer pessoa.

Rachel não está apenas representando alguém, está tentando ocupar um lugar dentro de uma família à qual não pertence. É uma espécie de erro de tradução: Gustav escreveu uma linguagem destinada à filha e tenta fazê-la ser pronunciada por outra pessoa.

Enquanto isso, os três Borg começam lentamente a convergir.

Nora se arrepende de ter recusado o papel. Agnes ensaia um movimento próprio de emancipação, deixando a conivência e o temor diante do pai e da irmã para encontrar sua própria voz. Gustav, talvez sem sequer compreender o que está fazendo, procura por meio do cinema uma forma de dizer aquilo que nunca conseguiu pronunciar como pai.

Essa dificuldade não nasceu com suas filhas. Quando criança, Gustav perdeu a mãe naquela mesma casa. Ela havia participado da resistência ao nazismo, fora torturada e, posteriormente, suicidou-se.

O trauma não transforma automaticamente uma vítima em alguém melhor. Tampouco é transmitido de uma geração à seguinte como se fosse uma doença hereditária simples. O que parece ocorrer com Gustav é mais complexo: ainda criança, ele aprende que aqueles que amamos podem desaparecer.

Décadas depois, torna-se ele próprio alguém que desaparece.

Sua mãe não o “abandonou” no mesmo sentido em que ele abandonaria Nora e Agnes. Mas o menino pode ter experimentado aquela morte como abandono. E talvez tenha passado toda a vida repetindo, em outra forma, aquilo que jamais conseguiu compreender.

O isolamento de Gustav parece irreversível. Ele é introspectivo, áspero, por vezes cruel. Sua comunicação fracassa quase sempre que depende apenas das palavras.

Exceto quando faz filmes. A arte oferece a Gustav uma gramática para sentimentos que, fora dela, permanecem mudos. Ele não consegue explicar-se para Nora, mas consegue escrevê-la.

Não consegue dizer diretamente à filha aquilo que sente, então escreve um filme em que talvez finalmente consiga fazê-lo. E Nora, por sua vez, só começa verdadeiramente a ouvir o pai quando ele deixa de falar como pai e passa a falar como artista.

É lendo o roteiro que ela começa a ocupar o lugar daquele menino que perdeu a mãe. Não para absolver Gustav, porque compreender não é inocentar.

Nora não descobre que seu abandono deixou de existir nem que sua dor era injustificada. Ela descobre a genealogia emocional daquilo que lhe aconteceu. Percebe que antes do pai que desapareceu havia um menino para quem alguém também desaparecera.

O passado permanece verdadeiro, apenas deixa de ser a única verdade disponível.

Quem torna essa compreensão possível é, em boa medida, Agnes. Em determinada cena, Nora pergunta à irmã como podem ter se tornado pessoas tão diferentes. Ela vive sozinha; Agnes construiu uma família e tem um filho. A resposta de Agnes é muito simples: “eu nunca estive verdadeiramente sozinha. Porque sempre tive você, Nora”.

A fala parece pequena, mas modifica a geometria de toda a família.

A avó deixa Gustav. Gustav deixa Nora e Agnes. Nora carrega de forma mais evidente as marcas da ausência. Agnes, protegida parcialmente pela irmã mais velha, parece ser a primeira integrante da família capaz de olhar conscientemente tanto para trás quanto para frente.

É ela quem começa a se impor diante dos outros. É ela quem defende que Erik, seu filho, possa simplesmente ser uma criança livre. E é ela quem desarquiva os documentos que relatam a tortura sofrida pela avó durante a ocupação nazista.

Talvez seja esse o gesto mais importante de todo o filme. Agnes investiga o passado não por fetiche genealógico, mas porque aquilo que permanece incompreendido continua atuando sobre o presente.

Ler o relato da avó rearranja a estrutura familiar. Subitamente, fatos que pareciam isolados passam a formar uma cadeia: a tortura, o suicídio, a solidão de Gustav, sua incapacidade de permanecer emocionalmente próximo das filhas, a ferida de Nora.

Não porque um acontecimento determine inevitavelmente o seguinte, mas porque os seres humanos atribuem significado ao sofrimento — e depois vivem de acordo com significados que muitas vezes sequer sabem possuir.

Nesse sentido, Sentimental Value ocasionalmente se aproxima de ideias que hoje aparecem vulgarizadas sob rótulos como “constelação familiar”. Mas não é preciso recorrer a qualquer explicação mística para compreender aquilo que Trier apresenta de maneira muito mais interessante: famílias transmitem memória, silêncio, comportamentos, medos, formas de amar e formas de desaparecer.

Aquilo que não é compreendido tende a ser repetido. Aquilo que consegue ser nomeado, talvez possa finalmente deixar de ser herdado. É significativo, então, que praticamente todos em Sentimental Value estejam ligados, de alguma maneira, à criação.

A arte é uma válvula de escape para nós, perturbados. Não porque o sofrimento produza necessariamente grandes artistas ou porque devamos romantizar a dor. Kafka não precisou sofrer para merecer sua genialidade, tampouco Dostoiévski precisou da Sibéria para aprender a escrever. Mas a arte permite transformar experiências amorfas em linguagem.

Em uma temporada cinematográfica na qual conhecemos Hamnet antes de Hamlet, vale recordar quanto daquilo que admiramos na literatura nasceu da tentativa de atribuir forma ao que parecia impossível suportar.

Como n’A Divina Comédia, o artista atravessa Inferno e Purgatório tentando construir, ainda que artificialmente, algum Paraíso possível.

Gustav parece retornar justamente em busca disso. Seu novo filme não é somente uma obra cinematográfica: é uma tentativa tardia de reorganizar o passado. Por isso precisa tanto de Nora.

Ela se parece fisicamente com sua mãe e psicologicamente com ele próprio. É simultaneamente filha, espelho e memória. Escolhê-la como protagonista significa inserir dentro da própria obra as diferentes gerações da família Borg.

Quando Nora finalmente aceita interpretar a personagem, portanto, algo maior acontece. Pai e filha fazem juntos aquilo que nunca conseguiram fazer diretamente: encenam a própria relação. É uma reconciliação mediada pela ficção.

Não há necessidade de transformar Gustav retroativamente em bom pai. Nora tampouco precisa fingir que aquilo que sofreu deixou de importar. Eles encontram outra possibilidade: reconhecer o dano sem permitir que ele determine integralmente aquilo que ainda pode existir entre os dois.

Trier já havia usado recurso semelhante em The Worst Person in the World. Enquanto uma versão de Águas de Março, interpretada por Art Garfunkel, acompanha o que resta após a morte de Aksel, a câmera se afasta dos indivíduos para revelar algo maior do que eles.

Em Sentimental Value, o movimento reaparece.

Nas cenas finais, o foco deixa de estar exclusivamente em Renate Reinsve e Stellan Skarsgård. Trier começa a mostrar o set, a equipe, os profissionais envolvidos na realização do filme. A pequena tragédia dos Borg se abre para o mundo.

É como se o diretor afastasse a câmera para revelar o macrocosmo no qual aquela história familiar sempre esteve inserida. Porque não existe família perfeita.

Podemos alterar estruturas sociais, abandonar determinados costumes e nos emancipar de expectativas que pareciam naturais às gerações anteriores. Ainda assim, começamos nossas vidas dentro de histórias que não escolhemos.

Nascemos em casas já construídas. Recebemos fundações que não assentamos. Às vezes herdamos inclusive rachaduras cuja origem ocorreu décadas antes de nossa chegada.

O desafio talvez seja descobrir quais delas pertencem realmente a nós e quais estamos apenas mantendo abertas porque ninguém antes teve coragem — ou condições — de procurar sua causa.

É por isso que o aparente AVC de Gustav produz a convergência final. Depois do extraordinário monólogo de Agnes, Nora volta a se aproximar do pai e, finalmente, assume o papel que fora escrito para ela. Não para apagar o passado, mas para continuar apesar dele.

Sentimental Value deixa, acima de tudo, a impressão de que somos seres muito sensíveis vivendo dentro de ecossistemas igualmente sensíveis. Um passo mais rígido para um lado ou para outro pode repercutir muito além de nós.

Talvez só possamos fazer três coisas: compreender o passado sem nos tornarmos seus prisioneiros, agir conscientemente no presente e aceitar que o futuro continuará sendo incerto.

Enquanto toca Cannock Chase, de Labi Siffre, algo parece finalmente se reorganizar dentro da casa dos Borg: a rachadura permanece; a fundação também. Mas a casa continua em pé.

Entregue à incerteza e guardado pelo acaso,
O Quixotesco

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O Quixotesco

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