O mundo no qual eu me encaixarei não existirá até que eu o crie.
Carta a Sol Stein, James Baldwin (1957). Tradução livre.
No princípio era a solidão, e a solidão estava comigo, e a solidão era eu. Há uma ideia da qual nunca consigo me desvencilhar: no fundo, sempre serei um exilado. Uma mente contemplativa presa em uma voz pragmática. Habito dois mundos ao mesmo tempo: o mundo real, cru como se apresenta todos os dias, e o mundo etéreo, que toma forma, cor e trejeitos dentro da minha cabeça. Mas não consigo me encaixar. E, por não conseguir, me sinto só em ambos.
Procurei uma solução para a solidão em livros, em escolas filosóficas, em pessoas, na ascese. Tentei permanecer só no mundo real; noutras vezes, afundei no etéreo. A vida toda. Como os que invocam espíritos invocam espíritos, invoquei a mim mesmo e não encontrei nada.
Encontro em Emil Sinclair uma pista: não devo destruir o real nem o etéreo. Devo integrá-los, da forma que eu for capaz. O Quixotesco é a minha resposta.
Uma resposta que não encerra a procura. Não pretendo criar ou promover certezas. Quero me conectar com outras solidões perdidas por aí, esperando serem encontradas.
Encontradas, nunca dissolvidas. A solidão não se remedia, só se habita. E foi habitando-a que vi meus dois caminhos: o da destruição e o da criação. O Quixotesco é a minha maneira de seguir pelo segundo e encontrar prazer no caminho.
“I’ve been down for oh so long
Cannock Chase, Labi Siffre (1972).
It seemed like my soul was dead and gone
But it’s alright, I’m back in the fight
I thought my day would never come
Maybe it won’t, but I’ll have fun
And I’ll hold tight, ‘cause that way it might”
Enxergo a arte como o que uma solidão faz para encontrar outra: o lugar onde uma alma consegue dizer o que não dá para evitar e não se pode escolher. Cada expressão artística tem um remetente e um destinatário – ainda que o destinatário seja incerto.
Para mim, ninguém amou a arte tanto quanto Dom Quixote. Alonso Quijano era um fidalgo que levou o etéreo para o mundo real. Viu gigantes onde havia moinhos. Pagou por seus enganos, mas também viveu por eles. A imaginação que o fazia cair também o movia.
Mas Quixote não permaneceu sozinho. Sancho foi junto – e, no fim, é ele quem pede que saiam outra vez, agora como pastores. O homem da Terra (ou da ínsula) é contagiado pelo homem do Céu. E o homem do Céu encontra quem o acompanhe pela Terra. Talvez seja essa a melhor integração entre real e etéreo que posso imaginar.
Se você chegou até aqui, talvez a sua solidão tenha reconhecido a minha.
No princípio era a solidão. Ela se fez outra voz, e habita entre nós enquanto houver moinhos de vento.
