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Quixotesco

A cura para a civilização.

15 · SET · 20264 min de leitura
Leitura

Cure é um dos filmes mais impressionantes que já assisti: comecei esperando um filme policial, terminei já não sabendo exatamente o que havia assistido.

Talvez um filme de terror. Talvez uma história sobre hipnose. Talvez algo pior: um filme sobre aquilo que resta do homem quando determinadas barreiras deixam de existir.

Durante suas quase duas horas, Kiyoshi Kurosawa faz crescer uma sensação incômoda de que tudo está sempre por um triz.

Takabe, o detetive encarregado de investigar uma sequência de assassinatos inexplicavelmente semelhantes, parece passar o filme inteiro a um passo de perder alguma coisa: a paciência, a sanidade, a esposa, o controle sobre si mesmo. Existe nele uma violência que ainda não chegou a se realizar. Algo que permanece contido por aquilo que costumamos chamar de caráter.

Do outro lado está Mamiya. Não exatamente um assassino, porque quase nunca precisa matar ninguém. Sua especialidade é mais perturbadora: conversar.

Ele encontra pessoas comuns, faz perguntas banais, embaralha suas certezas e, pouco depois, alguém morre. Os assassinos não sabem explicar por quê. Apenas carregam consigo a mesma assinatura: um X profundamente rasgado no pescoço da vítima.

No início, parece hipnose. Depois, deixa de importar.

A verdadeira pergunta de Cure não é como Mamiya consegue fazer aquilo. É o que exatamente ele desperta nas pessoas.

O horror de Kurosawa não vem de demônios, fantasmas ou criaturas capazes de atravessar nosso mundo. Não há mal algum precisando entrar no homem. Talvez ele já esteja lá.

Essa é a diferença que torna Cure tão desagradável.

O mesmerismo aparece como uma espécie de genealogia clandestina: Franz Mesmer, antigos experimentos, conhecimento transmitido, gravações esquecidas, práticas reproduzidas durante gerações até chegarem a Mamiya. Mas o sobrenatural nunca se estabelece completamente. Tudo continua estranhamente humano.

Homo homini lupus. O homem é o lobo do homem.

Lançado em 1997, no Japão que ainda experimentava as consequências do colapso da bolha econômica, Cure encontra um país marcado por exaustão, isolamento e desorientação. Kurosawa não precisa transformar a crise social em explicação direta para a violência. Faz algo mais interessante: constrói um mundo em que as estruturas responsáveis por manter as pessoas funcionando parecem progressivamente frágeis.

A sociedade continua existindo. As delegacias funcionam. Os hospitais funcionam. Os restaurantes funcionam. As pessoas trabalham, conversam, voltam para casa.

Mas alguma coisa apodrece por baixo. A civilização em Cure parece uma camada finíssima: basta arranhá-la.

Por isso Mamiya é um personagem tão perturbador. Um predador comum procura sua presa, Mamiya espera que a presa venha até ele.

Sakuma, psicólogo da polícia, sabe que existe alguma coisa perigosa naquele homem. Ainda assim, aproxima-se. Quer compreender, quer descobrir o mecanismo, quer olhar para dentro. E esse desejo de compreender acaba aproximando-o exatamente daquilo que deveria evitar.

Talvez seja uma das perversidades mais elegantes do filme: em Cure, conhecimento não significa necessariamente proteção. Às vezes, significa exposição.

Mamiya parece compreender isso melhor do que ninguém. Ele não precisa convencer seus interlocutores de uma nova verdade. Parece apenas desmontar as antigas.

Quem é você? Onde está? Que dia é hoje?

Perguntas elementares, repetidas até que a identidade comece a parecer menos sólida do que imaginávamos. E então alguma coisa emerge. Talvez Mamiya não coloque o homicídio dentro de ninguém. Talvez apenas retire aquilo que o impedia.

É por isso que Takabe sempre foi sua verdadeira presa. Desde o início, o detetive carrega consigo o material necessário: a esposa doente, a exaustão, a irritação, a culpa, os acessos de raiva, a sensação de estar condenado a cuidar, compreender e permanecer correto enquanto tudo ao seu redor se deteriora.

Mamiya percebe e só espera.

No edifício abandonado, pouco antes de morrer, diz a Takabe que quem quiser descobrir quem realmente é precisa ir até ali. Takabe vai. E mata Mamiya.

Seria tentador interpretar o disparo como vitória: o policial finalmente derrota o monstro. Mas Cure não termina.

Depois da morte de Mamiya, Takabe encontra uma antiga gravação associada ao mesmerismo. Pouco depois, vemos Fumie morta, marcada pelo mesmo X que acompanhou os assassinatos investigados ao longo do filme.

Então chegamos ao restaurante e Takabe está sentado à mesa. Alguma coisa mudou. Durante o filme, vimos um homem incapaz de descansar, constantemente consumido pelo trabalho, pela esposa, pelos crimes, pelo mundo. Agora ele come, termina a refeição, fuma um cigarro e toma seu café. Tranquilo como nunca.

Ao fundo, uma garçonete pega uma faca. Talvez seja nesse instante que o título finalmente se revele: Cure. Takabe passou o filme inteiro sofrendo e, no final, parece curado.

A esposa que o angustiava desapareceu. A responsabilidade moral parece ter desaparecido. O conflito desapareceu. Pela primeira vez, há silêncio dentro dele. O preço dessa paz talvez tenha sido justamente aquilo que o tornava um homem civilizado.

É uma ideia monstruosa, porque Kurosawa inverte aquilo que normalmente esperamos de uma história sobre corrupção moral. Takabe não termina enlouquecido, desesperado ou destruído: termina sereno.

Talvez o mal não seja uma doença em Cure. Talvez a doença seja tudo aquilo que nos obriga a reprimi-lo.

A culpa. A empatia. O dever. A responsabilidade. O amor. A civilização.

Mamiya não cria monstros. Apenas parece ensinar às pessoas como deixar de sustentar aquilo que as impedia de se tornarem um. E assim o homem finalmente descobre quem realmente é.

Estamos todos a um passo da barbárie. Não porque exista um monstro esperando para entrar, mas porque talvez ele nunca tenha estado do lado de fora.

Entregue à incerteza e guardado pelo acaso,
O Quixotesco

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O Quixotesco

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