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Ensaios.

Entre a fricção e a genialidade.

24 · SET · 202612 min de leitura
Leitura

“A felicidade é benéfica para o corpo, mas é o sofrimento que desenvolve as forças do espírito.”

(Marcel Proust, O Tempo Redescoberto)

Antes mesmo de Nigel Farage, o Reino Unido já era expert em lançar figuras mundialmente excêntricas. Não poderia ser diferente na música. E uma das maiores rixas traz justamente dois dos artistas mais polêmicos dos anos noventa: Noel Gallagher, do Oasis, e Robbie Williams.

Mas as ofensas mutuamente trocadas nunca impediram que Robbie reconhecesse a genialidade de Noel. Em 2025, no podcast Heretics, ele destacou o brilhantismo do Gallagher mais velho1:

“Like Noel Gallagher, right? Three-year, very, very, very hot streak, like the best on the planet in that moment. And, you know, B-sides that everybody else would just want one of those b-sides for themselves, for the rest of their lives to tour on the end of it. And he just shat them. Every time he sat down, it was just gold, gold, gold, gold, gold, gold, gold. And then you can see that for whatever reason, the third album was still really f***ing impressive.”

E ainda assim, encontrou uma forma de alfinetá-lo:

“But then, you know – with respect, because he’s still an amazing songwriter – magic, gone.”

Quanto mais leio as declarações de Noel, mais penso que ele próprio concordaria parcialmente com Williams – ou melhor: reformularia, entre ofensas ao cantor, a tese suscitada.

Em 2008, durante a divulgação de Dig Out Your Soul, último álbum do Oasis até o presente dia, Noel não só admitiu que seria impossível retornar ao brilho dos anos noventa como criticou a si mesmo por ter lançado álbuns quando “não tinha nada sobre o que escrever”2:

“I loved it then. But we couldn’t be like that now because we’re all late 30s, early 40s. I’m 41. Everybody says I’d be dead. Well, I wouldn’t be dead, I’d just be a little caricature of a rock star. Who wants to be a drug addict at 41? (…) Between Be Here Now and Don’t Believe The Truth, which spans five years, I was putting out records for the sake of it. We shouldn’t have bothered, I didn’t have anything to write about.”

Em 2015, foi além. Disse à Stereogum3 que precisaria voltar a ser quem era antes da fama para escrever músicas como “Live Forever” e “Supersonic”:

“Oh, no, no, no. I mean, if I could write something like ‘Live Forever’ and ‘Supersonic’ again … fucking hell, I’d be happy then. To write those songs, you have to be that person in that life. I’m not that person living that life anymore, d’you know what I mean? I’m glad I wrote them. I don’t really pine for going back to those times of being broke again. Fuck that.”

Para o guitarrista, inclusive, Definitely Maybe – que abarca “Live Forever” e “Supersonic” – foi, em muitos aspectos, o último grande álbum punk. Como disse à Mojo, em 2023: “Éramos uma banda punk com melodias à Beatles. Não tínhamos efeitos, mal tínhamos equipamento, só um monte de atitude, doze latas de Red Stripe e ambição”4.

Williams parece tratar o talento de Gallagher como um superpoder perdido. Como se Noel fosse o Homem-Aranha de Sam Raimi, incapaz de lançar suas teias nos prédios do Queens. Ele vê algo tão místico nessa extrapolação criativa que usa duas palavras muito interessantes: “ouro” e “mágica”. É como se Noel fosse um Midas, transformando sua Epiphone Les Paul sunburst em dezenas de milhões de libras.

Mas a metáfora de Midas esconde uma ironia: o ouro também transforma a vida de quem o produz.

Noel, consciente da própria trajetória, provavelmente veria a situação de outra forma – mais íntima. O conforto da riqueza não matou o letrista existencialista que insiste em se esconder em cinquenta mil camadas de arrogância, tampouco o compositor capaz de extrair melodias extraordinárias dos acordes mais simples. The Chief não esqueceu como se escreve uma grande canção, definitely.

Há, entretanto, uma diferença entre escrever grandes canções e produzir, em três anos, material suficiente para construir o repertório de uma das maiores bandas de sua geração. Noel continuou compondo, mas aquela abundância, aquela facilidade quase indecente de transformar tudo em ouro, já não era a mesma.

E, voltando à analogia do Midas, talvez o problema esteja justamente no ouro.

O jovem que escreveu “Rock ’n’ Roll Star” ainda não era uma estrela. O homem que escreveu “Live Forever” ainda não havia conquistado a imortalidade que suas canções lhe proporcionariam. Em “Slide Away”, Noel ainda estava apenas perseguindo o sol. Existia uma distância imensa entre a vida que Noel levava e aquela que iria viver. E, durante alguns anos, parece ter sido nessa distância que sua música encontrou uma força extraordinária.

O sucesso resolveu parte desse conflito. Noel conquistou o mundo que antes lhe parecia inacessível. E, quando voltou a se sentar com seu violão, já não era o mesmo homem e não tinha as mesmas razões para escrever. O talento permanecia, evidentemente. Mas o que aconteceu com aquela fricção que o alimentava?

Talvez Marcel Proust explique.

Em Little Miss Sunshine, Frank, o acadêmico especialista em Marcel Proust, faz uma ode aos anos de sofrimento no diálogo com o sobrinho:

“Ele [Proust] chega ao fim de sua vida, olha para trás e decide que todos aqueles anos que sofreu foram os melhores anos de sua vida, porque eles o tornaram quem ele era. Todos esses anos ele foi feliz? Você sabe, desperdício total. Não aprendi nada. Então, se você dormir até os 18 anos… Ah, pense no sofrimento que você vai perder.”

Frank exagera, mas há algo de profundamente proustiano em sua provocação. Proust não faz propriamente uma apologia ao sofrimento. Em O Tempo Redescoberto, a dor é capaz de nos arrancar da indiferença, de revelar verdades que o conforto mantém escondidas. Mas o sofrimento, por si só, não produz uma grande obra. É preciso que alguém consiga transformá-lo em alguma coisa.

E talvez seja esse o ponto em que Proust e Noel Gallagher se encontram.

Noel cresceu em uma Manchester proletária, foi expulso da escola aos quinze anos e conviveu com a violência do próprio pai. A música lhe ofereceu uma linguagem na qual podia expressar algo que dificilmente caberia na personalidade sarcástica e arrogante que o mundo aprenderia a conhecer. Mas não foram a pobreza ou a violência que escreveram “Live Forever”, “Supersonic” ou “The Masterplan”. Foi Noel, que encontrou na música uma maneira de transformar suas circunstâncias em algo maior do que elas.

O sofrimento pode ter fornecido parte da matéria-prima. A ambição, por sua vez, forneceu o movimento. Porque Noel não escrevia apenas sobre a vida que tinha, mas sobretudo sobre aquela que ainda não havia conquistado. Não era um homem lamentando o próprio passado; era um garoto tentando inventar o próprio futuro.

E talvez tenha sido justamente essa combinação entre uma vida da qual desejava escapar e outra que ainda precisava alcançar que tornou aqueles três anos tão extraordinários.

“os verdadeiros paraísos são os paraísos que perdemos.”

◆

Vem, então, Be Here Now, o terceiro álbum de estúdio da banda.

Noel já tinha os equipamentos que desejava, os estúdios que quisesse e a liberdade criativa de quem havia se tornado um dos maiores compositores do planeta. O toque de mágica permanecia: “D’You Know What I Mean?”, “Stand by Me” e “Don’t Go Away” estão aí para provar.

Mas as circunstâncias eram diferentes. O êxtase da fama e da cocaína encontrou uma banda que já não precisava provar nada a ninguém. O resultado foi uma obra marcada pelo gigantismo: guitarras sobre guitarras, arranjos monumentais, refrões repetidos até a exaustão, faixas excessivamente longas. A ambição de Noel parecia ter encontrado, finalmente, os recursos necessários para realizar todos os seus excessos.

E talvez nenhuma canção represente melhor essa transformação do que a maravilhosa, porém cansativa, “All Around the World”. Concebida antes mesmo de o Oasis lançar seu primeiro álbum, ela precisou esperar até que a banda tivesse dinheiro para realizar tudo o que Noel havia imaginado. Quando finalmente saiu, tinha mais de nove minutos, um “na-na-na” à la “Hey Jude” e uma reprise. A ideia era do jovem que ainda precisava conquistar o mundo; a execução, do homem que já o havia conquistado.

É quase como se o Noel de 1994 tivesse entregado uma canção ao Noel de 1997, e este, incapaz de acreditar que alguma coisa pudesse ser grande o suficiente, resolvesse acrescentar mais uma guitarra. E outra guitarra. E também uma orquestra.

Não faltava talento, é claro: ele não desapareceu. Talvez faltasse apenas alguém com “cojones” para dizer ao homem mais importante do britpop que sua música já estava pronta e era hora de largar os excessos.

E talvez essa seja a grande ironia de Be Here Now: a ambição sempre esteve lá e já era suficiente. A diferença é que, cinco anos depois, já não havia quase nada entre a imaginação do compositor e sua realização. Nem mesmo alguém disposto a contrariá-lo.

O sofrimento não havia desaparecido de sua vida. O homem continuava enfrentando os próprios demônios, os conflitos com o irmão, a pressão de uma indústria que esperava outro fenômeno comercial. Mas havia perdido parte da resistência que antes precisava superar para transformar suas ideias em música. E talvez, naquela altura, precisasse menos de alguém que lhe dissesse que era um gênio e mais de alguém que lhe dissesse: “menos é mais, Noel. Vai ‘pra’ casa”.

◆

Também seria muito injusto transformar Be Here Now em uma espécie de atestado de óbito da genialidade de Noel Gallagher. O que veio depois ainda foi extraordinário em muitos momentos. “Gas Panic!”, “Stop Crying Your Heart Out”, “Little By Little”, “The Importance of Being Idle”, “Falling Down”. E, já em carreira solo, “If I Had a Gun…”, “AKA… What a Life!” e “Dead in the Water”. Parafraseando o próprio Robbie, qualquer compositor daria uma parte considerável de sua discografia para poder reivindicar a autoria de meia dúzia dessas músicas.

E há uma ironia nessa lista: “Gas Panic!”, “Stop Crying Your Heart Out” e “Little By Little” nasceram justamente dos anos em que Noel diz não ter tido nada sobre o que escrever. Talvez ele seja severo demais consigo mesmo. Ou talvez o que lhe faltasse não fosse assunto, mas aquele assunto: a vida que ainda precisava conquistar.

A qualidade continuava lá. O que parecia ter desaparecido era aquela abundância quase obscena dos primeiros anos, quando Noel podia relegar uma composição como “The Masterplan” a b-side de um single e seguir tranquilamente para a próxima. O homem continuava capaz de transformar ideias em ouro sonoro, mas já não parecia ter uma mina inesgotável à sua disposição.

(E aqui me permito fazer uma ressalva: é loucura tratar The Masterplan como uma simples coletânea. Na discografia afetiva de qualquer fã de Oasis, aquele amontoado de b-sides tem o mesmo estatuto da “Santíssima Trindade” dos álbuns.)

E talvez isso tenha menos a ver com a perda da genialidade do que com a transformação daquilo que a alimentava.

“Gas Panic!”, por exemplo, não é a música de alguém que deixou de sofrer. Muito pelo contrário. Há, porém, uma diferença fundamental entre a angústia de quem ainda precisa conquistar o mundo e a de quem já o conquistou e descobre que seus demônios vieram junto. O jovem que escreveu “Rock ’n’ Roll Star” tinha diante de si uma vida inteira de possibilidades; o homem de “Falling Down” já conhecia algumas das consequências de realizá-las.

Noel não havia perdido a capacidade de sentir, tampouco a de transformar suas experiências em música. Mas aquela fricção inaugural, nascida da distância entre a vida que levava e a que desejava viver, estava morta e enterrada. Para sempre. A cada novo disco, o Oasis parecia menos uma banda tentando conquistar o próprio lugar no mundo e mais uma banda tentando descobrir o que fazer com o lugar que havia conquistado.

Acredito que essa seja a diferença entre escrever grandes canções e atravessar um período de genialidade quase ininterrupta. Noel continuou capaz do primeiro. O segundo, como observou Robbie Williams, parece ter pertencido a um momento muito particular de sua vida.

◆

Escolhi Noel Gallagher para esta reflexão por uma razão muito simples: sou fã. E, como qualquer fã, tenho uma propensão quase patológica a procurar explicações para o fato de que meu ídolo admitir já não conseguir escrever as músicas que um dia o alçaram ao sucesso mundial. A observação de Robbie Williams, contudo, identifica algo que vai muito além do Gallagher: algo que ronda todos os artistas de sucesso, e do qual poucos escapam.

Tomemos o U2 como exemplo. A mesma banda que lançou The Joshua Tree, Achtung Baby e Zooropa parece ter perdido, em algum momento, a capacidade de produzir álbuns com aquela mesma inventividade. No Line on the Horizon ainda tinha seus momentos. Songs of Innocence, alguns brevíssimos lampejos. Mas Songs of Experience e Songs of Surrender me parecem obras de uma banda que já não sabe o que fazer com a própria grandeza. O grupo que um dia teve a coragem de abandonar a sonoridade que o consagrou para produzir Achtung Baby parece agora, ao custo de mutilar sua própria discografia, muito mais interessado em administrar o próprio legado do que em desafiá-lo.

Mesmo Madonna, a rainha do pop, não fugiu a essa regra. Talvez seja, inclusive, o exemplo mais curioso: ela passou décadas se reinventando, antecipando tendências e transformando a própria imagem em uma obra de arte. Mas, depois do extraordinário Confessions on a Dance Floor, sua discografia já não me parece ter apresentado o mesmo fôlego. Nem por isso deixou de ser Madonna. O problema é que, quando alguém já foi capaz de produzir Ray of Light e Confessions, não basta continuar lançando músicas boas para que a magia permaneça intacta.

(Curioso perceber que Confessions II, lançado neste ano, foi recebido com um entusiasmo que Madonna não experimentava havia muitos anos. A crítica parece ter encontrado ali algo que faltava em seus trabalhos anteriores: uma artista novamente à vontade com a própria linguagem, capaz de revisitar o passado sem se limitar a reproduzi-lo. Ainda assim, não me parece retornar ao mesmo nível de brilhantismo de antes.)

E, se tudo isso parece um problema exclusivo dos artistas que envelheceram, até a competentíssima Taylor Swift deveria se preocupar.

Em 2020, folklore e evermore foram recebidos com extraordinário entusiasmo pela crítica. Cinco anos e dois discos depois, a princesa do pop lançou The Life of a Showgirl. A média de 69 no Metacritic não representa um fracasso, mas está drasticamente abaixo dos 88 e 85 de seus dois álbuns de 2020.

É cedo para dizer que Taylor perdeu alguma coisa, obviamente. Ela segue sendo o maior nome do pop mundial atual. Mas será que estamos assistindo ao começo de um fenômeno semelhante? Será que, depois de tantos recordes, bilhões de dólares e estádios lotados, a artista encontrará novas formas de produzir algo tão extraordinário quanto aquilo que a levou até ali?

Ou será que também acabará prisioneira da própria grandeza?

Não sei. E talvez essa seja justamente a pergunta que Robbie Williams deixou sem resposta.

◆

O sofrimento, por si só, não explica a genialidade de Noel Gallagher. E sua ausência tampouco explica o que aconteceu com o U2 ou com Madonna. Há artistas extraordinários que produziram grandes obras em momentos de felicidade, assim como há aqueles que atravessaram uma vida inteira de adversidades sem jamais transformar suas experiências em algo artisticamente relevante.

Mas talvez Proust tenha razão ao reconhecer no sofrimento uma força capaz de nos transformar. Não porque a dor seja virtuosa, mas porque certas experiências nos obrigam a confrontar aquilo que somos, aquilo que desejamos e aquilo que ainda não compreendemos.

O sofrimento nem sempre é um prato vazio ou uma camisa furada, apesar de serem as formas mais drásticas. Há um sofrimento espiritual dentro de todos nós, que persiste independentemente das condições materiais.

A fricção, por sua vez, pode ser a insatisfação com uma obra que ainda não encontrou sua melhor forma, a necessidade de abandonar uma linguagem que já dominamos ou simplesmente a coragem de reconhecer que nem tudo aquilo que produzimos merece ser chamado de ouro.

E talvez seja esse o grande desafio dos artistas que conquistaram o mundo: encontrar algo que ainda seja capaz de lhes oferecer resistência sem perder a autenticidade e a identidade.

Noel Gallagher jamais escreverá outro Definitely Maybe. Não porque tenha desaprendido a compor, mas porque já não é o rapaz que precisava escrever aquelas músicas. A vida que o inspirou foi transformada pela própria obra que dela nasceu.

Robbie, o homem que nunca alcançou o sucesso mundial na proporção do Oasis, talvez esteja certo. Aquela magia desaparece para todos.

Mas que destino mais irônico poderia ter um artista do que descobrir que as obras que lhe deram tudo também lhe tiraram a possibilidade de voltar a ser a pessoa capaz de escrevê-las?

  1. https://www.mirror.co.uk/3am/celebrity-news/robbie-williams-says-the-magic-36103731 ↩︎
  2. https://www.theguardian.com/music/2008/dec/06/noel-gallagher-oasis ↩︎
  3. https://stereogum.com/1782569/qa-noel-gallagher-on-kanye-paul-beck-beyonce-morrissey-marr-jack-white-black-keys/interviews ↩︎
  4. https://expresso.pt/blitz/2023-10-01-Noel-Gallagher-diz-que-Definitely-Maybe-dos-Oasis-foi-o-ultimo-grande-album-punk-70214b8f ↩︎

Teu até a morte,Quixotesco